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segunda-feira, novembro 26, 2007

Episodio 2.22

O telefone tocava e a campainha irritava-me com a sua pressa. À medida que ía acordando apercebi-me que já era dia. Talvez nem fosse tão cedo como isso. Ao som da campainha recordava a noite anterior, tentava separá-la do sonho que tinha sido interrompido pelo telefone.

"já não fazemos nada aqui, é melhor irmos dormir". Sim, dormir mais um bocadinho, pensava eu enquanto tentava enfiar uns chinelos nos pés. ... uma rapariga tinha desmaiado ao pé da gare...antes que pudesse reagir estava a ser puxado pelo braço...
- Está?- ...uma perseguição de carro...
- Ainda a dormir? Pensei que a curiosidade não te deixasse pregar olho!
- Claro, não preguei olho. Por isso gostava de dormir mais uma bocado.- ...um francês...
- Tens de cá vir. Há provas novas e gostava de discutir o assunto contigo.
- Ouve lá, aquela rapariga não morreu, pois não?
- A francesa? Como é que queres que saiba?
- A francesa?- ...uma francesa... - Não, a rapariga da gare.
- Qual rapariga da gare? A do café?
- Esquece! Eu vou já aí ter.

O digno e inteligente detective não tinha visto a rapariga desmair, estava sentado na mesa do café. Mas tinha visto um francês e por causa dele tinha-me arrastado numa perseguição um tanto ou quanto louca. E agora novas provas. O que seria agora?

Cheguei ao gabinete do detective e ele levou-me até ao bar para tomarmos uma café. Deve ter percebido que eu precisava. Acendeu devagar um cigarro com um fósforo que tirou lentamente de uma pequena carteira de fósforos.
- Deixa-me adivinhar,- não resisti a dizer- os bandidos deixaram uma carteira de fosforos algures. A carteira tem a morada de um bar obscuro e um número de telefone. Possivelmente até um nome misterioso. Acertei?
- Não!
- Já sei - continuei em tom sarcástico- é alguém que aposta os seus dedos em como o seu isqueiro se acende sempre.
- O quê? O que é que estás para aí a dizer?
- Lepra? "Onde é a casa de banho? Siga o dedo."
- O quê?
- Tiraste as impressões digitais do dedo e no computador apareceu a cara de um francês de nariz vermelho que rapta ciclistas
e os leva para os Estados Unidos?
- Bebe o teu café.
- Foi o cão dos Baskerville que os arrancou? O homem do "Piano", do "Adeus minha Concubina", o grande Lebowski?
-Pára com essas parvoíces. Vou contar-te.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Episodio 2.2

Foi este o sonho que me fez acordar apenas para sentir que a partir daqule momento podia dormir descansada. Quando estava prestes a adormecer o telefone tocou ...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Episódio 2.1 - The french connection

O detective continuava calmamente sentado a beber um novo refresco.
- Já voltaste? - Perguntou-me sem a mínima comoção - Pensei que te demorasses mais tempo, mas enquanto foste lá em baixo saiu-me a fava do bolo.
- Que dizes? Não vês que a mulher morreu?
Mais uma vez a lúcida frieza do meu amigo espantou-me. Mesmo explicando pormenorizadamente o seu raciocínio, não consegui acompanhar as deduções mas o certo é que ele tinha-se apercebido através do tipo de movimentos da rapariga que foi a queda de alguém já sem vida.
-E uma morte assim não te choca? - perguntei.
-Preocupo-me com os que ainda estão para morrer! Além do mais foi uma morte de causas naturais que nada tem a ver com o nosso caso. Não fiques assim... Ouve, durante a tua breve ausência passou por aqui um tipo com um tom irritado, francês com um sotaque normando. Pouco disse mas o suficiente para entender que alguém falhou um encontro.
Nessa noite fomos até uma espécie de restaurante japonês fast-food, era ali que novo encontro tinha sido marcado.
Chegámos cedo, pedimos um saké quente aquecendo um pouco os corpos dormentes do frio. Só após mais de uma hora o momento esperado chegou. Um homem e duas mulheres falavam ora preocupados ora divertidos. Ele ia falando francês e português, uma delas só português e a outra só francês. Foi a única coisa que conseguimos perceber dali, mas uma coisa era certa todos se entendiam sempre. Também eles beberam saké mas apenas após a refeição, talvez para os aquecer na caminhada que tomaram de imediato.
Seguimo-los até Belém, talvez algum não conhecesse ou fosse apenas amante do seu pastel típico. Parecia uma visita turística, ainda foram dar um passeio admirando o exterior do Mosteiro dos Jerónimos e seguiram para o jardim de Belém. A certa altura deixámos de os ver. Tinhamo-los perdido. Corremos para o carro, em vão. Percorremos algumas ruas em sua busca mas nada. A certa altura julguei-o toldado da razão, aparentava um ar entre o louco e o demoníaco, levando-nos em vai-vem recorrente num troço de avenida.
-Desculpa - disse ele - já não fazemos nada aqui, é melhor irmos dormir.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Episódio 2

Estavamos sentados num do cafés da Gare do Oriente, perto da varanda que dá para a rua entre a gare e o centro comercial. Estava escuro e fazia frio. Eu tinha fome e queria ir para casa. Só conseguia pensar que no bolso do detective estava um saquinho com três dedos.
- Que pensas tu disto?
- Eu? Nada! Não tenho a mínima ideia.
- Achas que os dedos foram cortados no comboio? Que o dono dos dedos está morto?
- Se não está morto está com dores!
- É um homem ou uma mulher?
Tentei recordar-me e senti uma volta no estômago. Os dedos estavam ensanguentados, as unhas escuras de sangue mas pareciam dedos delicados, finos. Pareciam definitivamente femininos. O detective acenava-me com um saquinho com anéis.
- Estavam dentro do saco. São três, o mesmo número dos dedos cortados.
- Será que alguém cortou os dedos para tirar os anéis?
- Ao contrário do ditado...
Fui buscar mais um café e enchi-o de açucar. Mas o excesso de açucar também me agoniava. Ao virar a cara para apanhar o ar que vinha da rua vi, lá em baixo no passeio, uma raparida que cambaleava e que acabou por desmaiar. Aproximou-se um casal para a ajudar e ao baixar-se, a senhora gritou assustada. Desci a correr para saber o que se passava.

terça-feira, novembro 13, 2007

Episódio 1.10

Estranhámos não haver nada lá dentro mas já suspeitávamos... O revisor, depois de aberta a porta, tinha-se retirado discretamente. Muitas hpóteses se ponham mas uma coisa era certa, Alguém da CP era cumplice ou culpado de qualquer coisa muito grave pois tinha fechado a porta antes do início da viagem deixando lá o saco. Despejado o saco surgiram mais dois dedos, agora sem surpresa dada a quantidade de sangue espalhada pelo conteúdo do saco.

Nada mais havia a fazer por ali a não ser revistar cuidadosamente a casa de banho para ver o que aparecia mais. Essa missão ficou para o meu amigo que o meu estomago já não suportava mais. No final da viagem saímos do comboio para recapitular tudo e ele me dizer que mais havia no WC.

segunda-feira, outubro 29, 2007

Episódio 1.9

Empurrei a porta devagar, surpreendendo-me a cada momento por nenhum obstáculo resistir ao seu movimento. A porta estava completamente aberta e não impedi um suspiro de alivio de me sair bem do fundo dos meus pulmões.

Dentro da casa de banho, quase na vertical, estava um enorme saco de viagem, azul escuro, com manchas. Estava aberto e vomitava todo o tipo de roupas para fora das suas entranhas. Com umas luvas de borracha calçadas, tal e qual como nas séries televisivas, o detective tirou o saco para fora da casa e banho e começou a analisá-lo. Notei que as suas luvas ficaram tingidas de vermelho, o que indicava que as manchas do saco eram sangue. De dentro do saco tirou várias peças de roupa e várias cabeleiras. Parecia um kit completo para disfarces.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Episódio 1.8 - Já sabem onde...

O detective guardou o papel no bolso e só a custo me impedi de lhe perguntar como é que tirava aquela conclusão do papel colorido. Mandou-me chamar o revisor para abrir a porta da casa de banho. Eu sei bem o que esperava lá encontrar, e o meu estômago começava a dar voltas com a antecipação do que ía ver.

Aos solavancos, lá chegou o revisor com uma chavinha especial, que parecia uma chave de elevador. Destrancou a porta e olhou para o detective.
- Abra, homem! Tem medo de quê. Nada aí dentro o vai morder!
O homem empurrou a porta, que abre para dentro, mas algo a impedia de deslisar. Fez um pouco mais de força e olhou de novo para o detective.
- Deixe estar. Vá-se embora!
Claro que não foi. Queria ver no que ía dar aquilo. O detective introduziu a mão, rente ao chão, pela fresta da porta. Ajoelhou-se para estar mais confortavel, e finalmente conseguiu arranjar espaço atrás da porta. Voltou a por-se de pé e disse-me, enquanto limpava o suor da testa
- Importas-te de abrir?

segunda-feira, outubro 22, 2007

Episódio 1.7 - No comboio

No momento em que chegávamos de novo junto às portas das casas de banho, o comboio começou a trepidar com alguma violência. O xinfrim metálico indiciava a passagem por uma zona de cruzamento de linhas. Enquanto procurava local seguro para ancorar as pernas no chão instável, o meu amigo repara numa série de objectos que rebolam aos nossos pés e comenta:
- Está explicado como é que o dedo foi parar à outra casa de banho.
Eu concordei e apontei para a porta junto ao chão:
- Por debaixo daquela porta passam dois dedos!
Tentei abrir a porta. Fiz força no puxador. Dei dois murros na porta e chamei:
- Está aqui alguém?!
O meu amigo, entretanto, agachou-se e apanhou alguns dos objectos que rebolavam pelo chão. Uma bola de papel laranja prendeu a sua atenção. Depois de desenrolar o papel disse de uma forma grave: - Não vale a pena chamar...

quarta-feira, outubro 17, 2007

Episódio 1.6 - Mais uma vez no Comboio

Ficámos à espera como se quiséssemos muito ir urinar. Tentámos ouvir o que se passava lá dentro e só o silêncio nos respondia. A impaciência era maior do que se estivéssemos mesmo a precisar de ir à casa de banho. Mas a impaciência tornou-se-me impossível de suportar quando atingiu os 10 min.
- Temos de fazer algo!
- Calma... Nas investigações o que é preciso é calma...
- Até alguém morrer outra vez! - disse impaciente.
- Mas o que te leva a crer que alguém morreu?- perguntou o Detective.
- O dedo! Quem mais perderia um dedo NA CASA DE BANHO se estivesse vivo?
A minha argumentação foi de tal forma veemente que nem resposta obtive. Em vez disso ouvi:
- Vamos procurar a pessoa que estava mais perto da casa de banho quando se ouviu o grito.
Essa pessoa era uma rapariga muito baixa e magra que apontara amedrontada para a porta logo após o grito e que agora fitava o exterior do comboio com um olhar totalmente perdido. Chegámo-nos ao pé e chamámos - Desculpe, importasse que lhe façamos umas perguntas? – A rapariga nem um gesto esboçou continuando a mirar o infinito fora da janela – DESCULPE! – disse eu exageradamente alto. A rapariga voltou-se então, timidamente, perguntando:
- Chamaram-me?
- Evidentemente que sim! – respondi de mau humor
- Desculpem, é que sou completamente surda deste ouvido...
Nada mais perguntámos. Cruzámos o olhar e corremos apressadamente para a porta da casa de banho que, evidentemente, continuava ocupada. A rapariga tinha indicado a casa de banho do lado do ouvido bom mas era evidente que o grito tinha vindo do lado do ouvido surdo!

Episódio 1.5 - Ainda no Comboio

Ao balcão da carruagem bar, um pouco encolhidos para ir-mos vendo a paisagem, esperávamos a nossa chegada a Lisboa. Perguntei:
- Como é possível alguém escapar-se da casa de banho através de uma porta fechada?
- Não me parece possível, pelo menos sem deixar um dedo para trás!
- Deixa-te de gracinhas. - o meu humor piorava com as dores nas costas devido aquela incómoda posição a que nos obrigam as estúpidas janelas - Este assunto é um pouco arrrepiante.
- Mas quem te disse que a pessoa se escapou com a porta fechada? Estavas lá para ver? Talvez nunca tebha estado ninguém na casa de banho!
- E o grito veio de onde?
Um silêncio marca o aparecimento de uma ideia na cabeça do detective.
- Da casa de banho ao lado...

Atravessámos, o mais depressa que conseguimos, as duas carruagens que nos separavam das casas de banho em causa. Fomos atrasados por um carrinho de comida com um empregado a repetir mecanicamente, com uma voz nasalada: "Desejam tomar alguma coisa? Desejam tomar alguma coisa?" A minha impaciencia era visivel por todos menos por o empregado, de costas para nós. No fundo de uma carruagem lá o conseguimos ultrapassar e depois de alguns encontrões chegámos ao nosso objectivo. A casa de banho onde o dedo tinha sido encontrado tinha o aviso "Fora de serviço" colado na porta. A casa de banho do lado estava neste momento ocupada.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Episódio 1.4 - Ainda no Comboio

Ao mesmo tempo que ouvia aquilo o rapaz da conversa de engate procurava algo nos bolsos do casaco. Que teria ele perdido, um dedo? Quando fechava os olhos para melhor suportar a náusea que começava a sentir ouço o meu nome. Um detective da polícia, um amigo meu, estava também no comboio. Era ainda jovem e estava pronto para entrar em acção. Não fiquei particularmente feliz por ele me ter recomhecido.

- Não és tu que gostas de policiais? Pois hoje vais participar numa investigação a sério. Não podemos deixar essa cabecinha ser sugada por um buraco negro. Ah,ah, ah!
Sorri o mais que podia. Detesto este tipo de humor. Pegou-me no braço, levantou-me do lugar e obrigou-me a mais uma viagem até à extremidade da carruagem. Com voz autoritária afastou a multidão e ficámos os dois a espreitar para 2 metros quadrados de um chão imundo e malcheiroso.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Episódio 1.3 Ainda no comboio (cont.)

Estava tão vazia que se sentiu o sopro do vácuo. O revisor, diligente, rapidamente excluiu todas as hipóteses de alguém de facto estar naquela casa de banho com 2 metros cúbicos. Um dos mirones, envergando um farto bigode e casaco de cabedal apesar da canícula, sugeriu que: "Se calhar a menina caiu pela sanita abaixo. Foi direita aos carris! Já está feita às postas!...". Recuei e respirei fundo. Enquanto regressava inconscientemente ao meu lugar, tomei a decisão de voltar a trabalhar na teoria dos micro-buracos negros anisotrópicos. Entretanto o rebuliço regressou à casa de banho da carruagem. Um dos mirones rastejantes gritou:"É um dedo!"

Episodio 1.2 - Ainda no comboio

O grito era rouco, abafado, e vinha directamente da casa de banho. Pensei se alguma ratazana teria mordido o rabo daquela passageira mas não me parecia provável. Alguém que esperava a sua vez para urinar ou algo mais bateu na porta: "Está bem?"... Apenas o silêncio lhe respondeu. Começámos a ficar agitados; toda aquela gente desconhecida naquela carruagem tinha agora algo em comum por que lutar. O que se passara na casa de banho que fizera uma desconhecida gritar e agora a mantinha completamente em silêncio? Alguém acabava de chegar com o revisor que tinha já a chave na mão. A metade de nós mais corajosa, ou menos tímida, juntou-se na porta do WC, a outra metade olhava ansiosa para a parte da porta que ainda conseguiam vislumbrar por de trás das cabeças dos outros.

A chave entrou a fechadura e, devagar... bem devagar... foi rodada por um transpirado funcionário da CP que não tinha onde cair morto dada a cor exageradamente branca da sua pele.

A pouco e pouco a porta foi-se abrindo. Eu era das que estava na primeira fila para ver qualquer coisa de extraordinário naquele solitário compartimento do comboio.

Quanto mais se abria, mais extreaordinária era a visão e mais nós fitávamos o seu anterior... Até que, com a porta completamente aberta, nada se podia esconder: a casa de banho estava vazia!

terça-feira, outubro 09, 2007

Episodio 1 - No comboio

Já era noite. Regressava como sempre de comboio, que como sempre estava cheio. A fauna era a habitual: uma criança barulhenta a correr pelo corredor, duas amigas de meia idade a falar mal das noras, alguém a gritar ao telemóvel "tou? tá? não tenho rede, tou, estás a ouvir?". No fundo da carruagem surge um homem com ar severo, olhando para a numeração dos lugares. Para e olha reprovadoramente para uma senhora bem vestida. Posso adivinhar a conversa. Têm bilhetes para o mesmo lugar. Posso adivinhar como acaba. Um deles está na carruagem errada. Mas já não me interessa quem ganha.

Instalo-me. Tiro um livro do saco que pouso no colo e olho para a televisão pequenina no tecto da carruagem. Deixo-me adormecer.

A conversa de engate do banco à minha frente desperta-me mas antes de conseguir abrir os olhos um grito no final na carruagem põe-me definitivamente em alerta.